quinta-feira, 18 de julho de 2013

Klittmut



Já quando criança, Klittmut sabia que algo com ele estava errado. Nunca conseguia marcar um gol no futebol do recreio. E não por falhas dele, mas por ironias do destino. Uma vez, quando a bola já havia passado do goleiro e ia em direção ao gol, uma pomba se atravessou e fez a bola cair fora do gol. Outra vez, quando ia finalizar com o gol vazio um cachorro, que ninguém viu se aproximar, atropelou-o e fez com que ele errasse a meta.
Na adolescência, ele se apaixonou. Conseguiu se aproximar da menina, manter contatos e se relacionar com ela. Após um mês de ensaios, criou coragem e foi fazer uma serenata para sua paixão. No entanto, no momento que iniciava a canção um galho caiu sobre ele. Esse acidente o fez ficar deitado e observar como outro rapaz cantou a mesma música que ele havia ensaiado para a mesma menina e a conquistou. Os dois viveram felizes para sempre.
Por algum ‘descuido’ do destino, Klittmut conseguiu entrar na universidade para estudar engenharia. Pensava ele que sua hora havia chego. No entanto, seu azar o acompanhou. Não conseguiu terminar uma única matéria no prazo, porque sempre algo acontecia. Cachorros comiam suas tarefas, galhos caiam no seu caminho e várias outras coisas difíceis de acreditar. Nenhum professor mais acreditava nos motivos dados por ele, pois nenhum parecia verdadeiro. Mas eram.
Klittmut conseguiu achar um emprego como engenheiro. Mas novamente seu azar o acompanhou. A primeira ponte projetada por ele com todos os cuidados indicados foi vítima de atentado terrorista antes da inauguração. Três prédios dele caíram porque a prefeitura iniciou obras de metrô na região. Sem contar as inúmeras casas destruídas por furacões, tornados, terremotos e outras tragédias.
Já ciente dessa sua sina, Klittmut decidiu cuidar do dinheiro que ganhava. Diversificou investimentos, criou planos de previdência em 3 países e até no colchão guardou dinheiro. Mas depois de duas crises mundiais, 2 golpes de estado, 1 presidente assassinado e um incêndio na sua casa ele sobrou com nada.
Um dia Klittmut encontrou um senhor que o disse que eles existiam apenas para um blogueiro poder ter algo para publicar. Indignado, Klittmut disse: “Então melhora minha situação ou para de escrever!”.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Jhoänegruzis



Jhoänegruzis era um deserto esquecido pela civilização. Em apenas alguns relatos esparsos era mencionado como um lugar inóspito, sem vida e sem nada que chamasse a atenção. Seu solo era duro com algumas rachaduras. Havia ali sinais de diversos tempos, épocas distantes das quais ninguém mais tem conhecimento. Mas apesar do total desconhecimento da civilização deste local, todas as eras deixaram marcas ali. Diversos sinais de um dia ter havido vida ali estavam à mostra. Porém, como nunca alguém por ele demonstrou interesse, ninguém sabe o que lá ocorreu.
No entanto, para um observador mais atento as marcas são de fácil leitura. Ossos de grandes mamíferos provam que já existiram esses seres por ali. Assim como a morte de todos ao mesmo tempo por alguma causa ainda desconhecida está nítida. Da mesma forma, ossadas de pássaros mostram que em um período posterior aos mamíferos, aves já viveram na região. Nenhum desses animais sobrevive por conta própria, portanto pastagens e arbustos existiram ali também.
Recentemente algo inesperado acontece por ali. Aparentemente, a vida inicia um novo ciclo. Sinais de vegetação começam a surgir. Nas fronteiras do sul de Jhoänegruzis pássaros iniciam a construção de ninhos, pétalas de flores e sementes são trazidas pelo vento. No entanto, na fronteira norte de Jhoänegruzis nuvens escuras e tenebrosas se aglomeram.
(com continuação)

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Nifred o náufrago



Nifred era um marinheiro que trabalhava nas caldeiras do navio. Nunca saía de lá, apenas para se alimentar ou em eventuais chamadas dos seus capitães. O que ele sabia e se importava em fazer era alimentar as chamas da caldeira. Nunca se importava com outros assuntos. Muito pelo contrário. Nifred tinha muito medo de sair daquele lugar que conhecia tão bem. Nunca se importou com outras atividades, apenas lhe interessava fazer sempre a mesma coisa. Pensava assim se proteger dos males do mundo.
Em uma de suas viagens rotineiras, um erro do comandante somado às intempéries do clima, o navio onde ele se encontrava, e no qual trabalhou sua vida inteira, naufragou. Daquela trágica noite, Nifred carrega poucas lembranças. Na sua memória apenas ficaram os gritos de pânico de passageiros e tripulantes. O som da água entrando pelo navio ainda permaneceu por muito tempo em sua memória.
Ninguém até hoje sabe explicar como, mas Nifred acordou em uma praia deserta em um belo dia ensolarado. Em pânico, nosso protagonista imediatamente procurou abrigo e encontrou em uma caverna o que tanto procurava. Tomado pelo pavor de ser devorado por animais selvagens ele fez dessa caverna seu lar. Mais do que isso, fez dela o único lugar conhecido por ele na ilha. Pensava que, estando dentro da caverna e nunca se afastando dela, jamais correria risco.
Até o dia que um urso encontrou a caverna. Sem ter para onde correr, apenas para o fundo da caverna, Nifred tornou-se a presa mais fácil desse animal.