domingo, 3 de novembro de 2013

Som do silêncio

A insônia me visita. Ligo o rádio e toca 'Sound of Silence'. Procuro então minha velha amiga, a escuridão, para conversar sobre uma assustadora visão que deixou suas sementes na minha mente enquanto eu dormia. Nessa visão, estava eu caminhando sem rumo por uma rua de paralelepípedos. Protegendo-me do frio, vagava por uma rua repleta de enfeites natalinos onde todas as lojas estão abertas 24 horas. Foi então que uma luz de neon abrupta tira-me da minha compenetração e toca o som do silêncio.
E nessa luz nua vi 10 mil pessoas, talvez mais, todas olhando e escrevendo nos seus celulares, falando sem dizer nada para pessoas que escutavam sem ouvir. Um silêncio barulhento dominava o ambiente. Todos procuravam por presentes e bens de consumo para seus supostos bens amados. Homens e mulheres não se falavam, mas compravam presentes um para o outro. Filhos descontentes com seus pais, pediam pelos mais caros produtos. Pais procuravam apaziguar suas crias adquirindo presentes mais caros possíveis. Pessoas compravam coisas apenas para aqueles amigos que podiam lhes trazer benefícios na profissão. Ninguém se falava, ninguém dizia nada, ninguém ousava perturbar o som do silêncio.
"Tolos" eu disse "não percebem o que está acontecendo?Vocês buscam consumir para comprar seus amores e amigos, porém permanecem em silêncio com aqueles que realmente se importam com vocês! E esse silêncio cresce como câncer! Procurem aqueles para os quais vocês são importantes sem a necessidade de consumir!". Porém ninguém me ouviu. Minhas palavras ecoaram num poço de silêncio.
Pessoas entravam nas lojas indiscriminadamente. E todas, sem exceção, tinham a luz neon. Era como um deus criado por elas. Resolvi ir embora usando o metrô. Sentado na estação, olhei para as paredes do local e vi propagandas de perfumes, roupas, carros, jóias, computadores e várias outras coisas para consumir. Essas propagandas pareciam palavras dos profetas da luz neon dizendo o que cada um devia consumir nas lojas. Palavras essas sussurradas no som do silêncio.