segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Esquerda x Direita texto II – Revolução Russa


Marx morreu em 1883, mas suas ideias continuaram. Ele foi (e é ainda) o grande pensador influenciador de diversos partidos comunistas que surgiram. Assim como ocorreu com vários outros pensadores, ele teve uma turma de seguidores e seu nome deu origem a uma linha de pensamento, a saber, o marxismo. Muitas das ideias hoje ditas como marxistas são um misto dos pensamentos originais desse pensador e de seus seguidores.

Importante notar que o marxismo surgiu em uma sociedade capitalista e democrática1 e previa uma revolução a partir de uma sociedade que se encontrava nesse estado. Voltando um pouco no tempo, ao longo do século XIX2 desenvolveu-se e estabeleceu-se na Europa Ocidental um modelo políto-econômico. Eric Hobsbawm chama esse processo de dupla revolução, onde um regime político (monarquia absolutista com seus reis e nobreza) dá lugar a um novo (em sua maioria monarquias constituicionalistas com suas constituições, assembleias eleitas, chanceleres e etc). Juntamente, um regime econômico feudal dá lugar ao regime capitalista. Essa sociedade onde Marx viveu possuia, segundo ele e seus seguidores, uma contradição intrínseca que resultaria no seu fim, pois o rico ficaria mais rico e pobre cada vez mais pobre. Uma hora o pobre se aperceberia disso e se revoltaria. Essa revolta ficou conhecida como revolta comunista.

No entando não foi isso que se viu acontecer. No final do século XIX e início do XX, os capitalistas perceberam que poderiam aumentar sua produção melhorando as condições de trabalho dos seus operários. Foi nesse período que surgiram os primeiros programas para melhorar o bem-estar social, em outras palavras, foi nesse período que surgiram os primeiros INSS, FGTS e previdências sociais do capitalismo moderno.

Isso significou um grande problema para os marxistas, pois agora as pessoas começaram a gostar de trabalhar para o capitalista. Com isso, a revolução comunista não poderia ocorrer, pois se o povo não se revoltasse, não haveria revolução (óbvio não é?)! Então, qual seria a saída? Iniciar a revolução em um país que não tenha passado pela dupla-revolução descrita anteriormente. Qual seria esse país? A Rússia! E coube o papel de incendiar a revolta a Vladimir Lenin.

No entanto, havia um problema. Se o comunismo vem de uma sociedade capitalista, como fazer com que a Rússia pulasse de uma sociedade feudal para uma comunista, sem passar pelo capitalista? A solução foi que a Rússia passaria por uma espécie de capitalismo controlado e rápido, apenas para as pessoas pegarem o gostinho e perceberem os problemas do capitalismo. Depois, iniciaria-se a revolução que deveria tomar toda a Europa e o mundo.

Interessante perceber que já em 1917 viu-se que as ideias de conflito de classe, revolução comunista, fosso entre as classes e etc. possuiam lacunas e que o desenrolar da história provou-se diferente do que Marx previa. Percebeu-se que a revolta comunista não aconteceria em países capitalistas devido às políticas de bem-estar social empregadas pelos governos burgueses. Afinal, qual problema de eu trabalhar para um capitalista, se ele me dá dinheiro suficiente para eu ter uma vida bacana? Chegamos ao ponto onde gostaria de iniciar o último texto da série. Não deixe de ler!

1Não democrática como temos hoje no século XXI, mas já haviam à época constituições, assembleias eleitas e outras instituições democráticas.
2Muitos podem dizer que o início do período descrito foi com a revolução francesa de 1789.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Esquerda x Direita texto I – Conflito de classes


Um dos conceitos centrais do marxismo e, por consequência do pensamento de esquerda, é o conceito de conflito de classes. Esse desenvolveu-se ao longo do século XIX por Karl Marx e tornou-se ponto comum em quase todos os pensadores que o seguiram. Para melhor compreender esse conflito de classes, vamos voltar um pouco no tempo e ver uma das suas origens.

Na primeira metade do século XIX viveu um filósofo alemão chamado Georg Wilhelm Friedrich Hegel que desenvolveu um conceito interessante para dialética. Essa dialética que ficou conhecida como 'Dialética Hegeliana' difere em alguns pontos daquela utilizada pelos gregos, mas não iremos nos ater a isso nesse momento. Apenas mantenha em mente que a dialética aqui descrita não é igual àquela dos gregos.

Para Hegel, o desenvolver do mundo se resume a um embate entre opostos. Existe uma tese e uma antítese. Essas entram em conflito e desse último surge uma síntese que tornar-se-á um tese e reiniciará o ciclo. Exemplificando, imagine uma planta. Essa planta simplesmente vive (tese). No entanto, um determinado dia surge uma nova espécie de lagarta que ameaça a vida dessa planta (antitese). Do ponto de vista dessa planta, ela agora precisa enfrentar essa sua antitese. Esse conflito gera dor e sofrimento, mas ao final do processo ela se torna uma planta melhor pois superou sua antítese. Mas ela não é mais a mesma de antes, esse conflito pelo qual ela acabou de passar tornou-a uma nova planta, ou seja, uma síntese desse processo.

Analogamente, Marx pegou esses conceitos hegelianos e implementou nos seus estudos. Analisando a história da humanidade, ele conseguiu ver diversos períodos em que uma realidade estabelecida (tese) encontrou uma contestadora (antítese). Isso gerou um conflito que resultou em uma nova sociedade (síntese). Assim foi no Império Romano (tanto na sua ascensão quanto na sua queda), na Idade Média e na ascenção da burguesia.

Essa realidade da burguesia já estabelecida foi o ambiente no qual Marx viveu e escreveu. Para ele, esse período se dividia em uma classe que detinha os meios de produção ( os capitalistas ) e aqueles que vendiam sua força de trabalho para eles ( os operários ). Essa realidade caminharia para a criação de um foço social separando esses dois grupos. Teríamos aqui uma dialética hegeliana, sendo os capitalistas a tese, os operários a antítese. Disso resultaria um conflito, uma revolução. Essa revolução resultaria numa sociedade melhor e mais justa, a síntese.

Conflito de classe, simplificando, é a implementação do dialética hegeliana na sociedade. Existe um poder estabelecido que se defronta a uma nova realidade. Esses dois se embatem e geram uma nova sociedade. Importante notar que nesse processo, fala-se em dor, conflito, embates. Palavras importantes para os próximos textos.