Conflitos existem em qualquer
relação humana e esse não é o problema. A grande dificuldade ao encarar um
conflito é que normalmente pensa-se que ele é ruim, devastador e doloroso. Como
vimos no primeiro texto, é pela dor e sofrimento que conhecemos uma nova
realidade. No entanto, isso nem sempre precisa ser assim, ou seja, um conflito
não é necessariamente uma luta onde um lado sai vencedor e outro perdedor.
Nesse documentário, o historiador
Dominic Sandbrook analisa o desenvolvimento da indústria automobilística alemã
e inglesa após a Segunda Guerra Mundial até os dias de hoje. A partir do minuto
28, o autor menciona como as relações entre os sindicatos e as empresas eram
completamente diferentes entre esses dois países. Os sindicalistas ingleses se
viam como os defensores dos pobres operários contra os exploradores. Várias
greves foram feitas e a relação entre eles era de um contra o outro. Por outro lado,
os operários alemães se viam como uma parte importante do processo e não
lutavam contra alguém, mas procuravam ouvir e serem ouvidos. Dessa forma, a
indústria automobilística alemã continua uma das mais fortes do mundo, enquanto
a inglesa, se existe, está nas mãos de não-ingleses.
Mas então, por que não procurar
entender cada um como uma parte do processo e assim conseguir o bem para todos?
A resposta, na minha opinião, é porque é mais fácil controlar um povo desunido
e cheio de conflitos do tipo ‘nós contra eles’ do que uma população ciente do
seu papel e importância.
Deixe-me pegar um exemplo do que
vimos (mais uma vez) na virada do ano. Quem foi para o litoral brasileiro deve
ter perdido muito tempo na estrada ou então, acordou de madrugada para viajar e
abriu mão de um dia de praia. Para aquelas pessoas pró-governo isso é um ótimo
sinal. Esses congestionamentos enormes são um sinal do progresso econômico
brasileiro e a situação não está melhor apenas por ‘eles’, os anti-governo,
sabotam o país. Da mesma forma, os anti-governo culpam ‘eles’, os pró-governo
de impedirem o real desenvolvimento brasileiro.
Mas vamos imaginar uma situação
hipotética. Imagine que dentro de um carro, 4 engenheiros se irritam com aquilo
e resolvem fazer projetos para o desenvolvimento da estrutura logística do
país. Mas eles sozinhos não conseguem, precisam de análise de impacto ambiental
para ver o projeto mais viável. Mas isso também não é problema! No carro ao
lado viajam 4 ambientalistas que se dispõem a fazer as análises ambientais.
Ótimo! Mas quem vai executar a obra? Isso também não é problema pois logo ali a
frente um carro com 4 mestres-de-obra está parado e eles se dispõem a se
empenhar em juntar o pessoal necessário para executar a obra. Tudo ótimo, mas
um mestre-de-obra pergunta ‘Como vamos saber o que cada um deve e não deve
fazer?’. Quem responde são os 4 advogados parados mais atrás que se dispõem a
fazer os contratos entre as partes. Nessa realidade descrita, a figura dos
políticos se torna praticamente desnecessária, e é justo isso que não se quer
ver acontecer.
Infelizmente no Brasil, eu não
vejo que chegaremos perto de uma situação como essa última. Vejo cada vez mais
que por aqui o grupo dos ‘true believers’[1]
cresce cada vez mais. Esse grupo de pessoas é formado por gente que acredita
cegamente numa interpretação da realidade feita por uma pessoa, partido ou
grupo religioso[2].
Isso percebi claramente ao final de 2014 quando o governador Beto Richa (tido
por aqui como de direita) subiu descaradamente os impostos e a Dilma (tida por
aqui como de esquerda) tirou direitos dos trabalhadores. O que se viu então dos
correligionários de cada um é que ‘eles’ são os culpados por isso e ‘nós’
estamos fazendo o melhor, porque ‘eles’ com certeza fariam muito pior. E assim
continuamos tendo Sarneys, Requiões, Richas, Calheiros, Magalhães e etc.
governando o país a muito tempo.
[1]
Esse termo veio a partir do livro ‘The True Believer’ que analisa diversos
movimentos de massa e como eles se comportam. Ainda não o li, mas está na minha
lista.
[2] Um
livro muito interessante que retrata o que penso é ‘1984’. Vale a leitura e ali
você entenderá muito melhor o que quero dizer com essa parte do texto.
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