segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Esquerda x Direita texto III - Um pouco sobre a realidade brasileira



Conflitos existem em qualquer relação humana e esse não é o problema. A grande dificuldade ao encarar um conflito é que normalmente pensa-se que ele é ruim, devastador e doloroso. Como vimos no primeiro texto, é pela dor e sofrimento que conhecemos uma nova realidade. No entanto, isso nem sempre precisa ser assim, ou seja, um conflito não é necessariamente uma luta onde um lado sai vencedor e outro perdedor.
Nesse documentário, o historiador Dominic Sandbrook analisa o desenvolvimento da indústria automobilística alemã e inglesa após a Segunda Guerra Mundial até os dias de hoje. A partir do minuto 28, o autor menciona como as relações entre os sindicatos e as empresas eram completamente diferentes entre esses dois países. Os sindicalistas ingleses se viam como os defensores dos pobres operários contra os exploradores. Várias greves foram feitas e a relação entre eles era de um contra o outro. Por outro lado, os operários alemães se viam como uma parte importante do processo e não lutavam contra alguém, mas procuravam ouvir e serem ouvidos. Dessa forma, a indústria automobilística alemã continua uma das mais fortes do mundo, enquanto a inglesa, se existe, está nas mãos de não-ingleses.
Mas então, por que não procurar entender cada um como uma parte do processo e assim conseguir o bem para todos? A resposta, na minha opinião, é porque é mais fácil controlar um povo desunido e cheio de conflitos do tipo ‘nós contra eles’ do que uma população ciente do seu papel e importância.
Deixe-me pegar um exemplo do que vimos (mais uma vez) na virada do ano. Quem foi para o litoral brasileiro deve ter perdido muito tempo na estrada ou então, acordou de madrugada para viajar e abriu mão de um dia de praia. Para aquelas pessoas pró-governo isso é um ótimo sinal. Esses congestionamentos enormes são um sinal do progresso econômico brasileiro e a situação não está melhor apenas por ‘eles’, os anti-governo, sabotam o país. Da mesma forma, os anti-governo culpam ‘eles’, os pró-governo de impedirem o real desenvolvimento brasileiro.
Mas vamos imaginar uma situação hipotética. Imagine que dentro de um carro, 4 engenheiros se irritam com aquilo e resolvem fazer projetos para o desenvolvimento da estrutura logística do país. Mas eles sozinhos não conseguem, precisam de análise de impacto ambiental para ver o projeto mais viável. Mas isso também não é problema! No carro ao lado viajam 4 ambientalistas que se dispõem a fazer as análises ambientais. Ótimo! Mas quem vai executar a obra? Isso também não é problema pois logo ali a frente um carro com 4 mestres-de-obra está parado e eles se dispõem a se empenhar em juntar o pessoal necessário para executar a obra. Tudo ótimo, mas um mestre-de-obra pergunta ‘Como vamos saber o que cada um deve e não deve fazer?’. Quem responde são os 4 advogados parados mais atrás que se dispõem a fazer os contratos entre as partes. Nessa realidade descrita, a figura dos políticos se torna praticamente desnecessária, e é justo isso que não se quer ver acontecer.
Infelizmente no Brasil, eu não vejo que chegaremos perto de uma situação como essa última. Vejo cada vez mais que por aqui o grupo dos ‘true believers’[1] cresce cada vez mais. Esse grupo de pessoas é formado por gente que acredita cegamente numa interpretação da realidade feita por uma pessoa, partido ou grupo religioso[2]. Isso percebi claramente ao final de 2014 quando o governador Beto Richa (tido por aqui como de direita) subiu descaradamente os impostos e a Dilma (tida por aqui como de esquerda) tirou direitos dos trabalhadores. O que se viu então dos correligionários de cada um é que ‘eles’ são os culpados por isso e ‘nós’ estamos fazendo o melhor, porque ‘eles’ com certeza fariam muito pior. E assim continuamos tendo Sarneys, Requiões, Richas, Calheiros, Magalhães e etc. governando o país a muito tempo.


[1] Esse termo veio a partir do livro ‘The True Believer’ que analisa diversos movimentos de massa e como eles se comportam. Ainda não o li, mas está na minha lista.
[2] Um livro muito interessante que retrata o que penso é ‘1984’. Vale a leitura e ali você entenderá muito melhor o que quero dizer com essa parte do texto.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Esquerda x Direita texto II – Revolução Russa


Marx morreu em 1883, mas suas ideias continuaram. Ele foi (e é ainda) o grande pensador influenciador de diversos partidos comunistas que surgiram. Assim como ocorreu com vários outros pensadores, ele teve uma turma de seguidores e seu nome deu origem a uma linha de pensamento, a saber, o marxismo. Muitas das ideias hoje ditas como marxistas são um misto dos pensamentos originais desse pensador e de seus seguidores.

Importante notar que o marxismo surgiu em uma sociedade capitalista e democrática1 e previa uma revolução a partir de uma sociedade que se encontrava nesse estado. Voltando um pouco no tempo, ao longo do século XIX2 desenvolveu-se e estabeleceu-se na Europa Ocidental um modelo políto-econômico. Eric Hobsbawm chama esse processo de dupla revolução, onde um regime político (monarquia absolutista com seus reis e nobreza) dá lugar a um novo (em sua maioria monarquias constituicionalistas com suas constituições, assembleias eleitas, chanceleres e etc). Juntamente, um regime econômico feudal dá lugar ao regime capitalista. Essa sociedade onde Marx viveu possuia, segundo ele e seus seguidores, uma contradição intrínseca que resultaria no seu fim, pois o rico ficaria mais rico e pobre cada vez mais pobre. Uma hora o pobre se aperceberia disso e se revoltaria. Essa revolta ficou conhecida como revolta comunista.

No entando não foi isso que se viu acontecer. No final do século XIX e início do XX, os capitalistas perceberam que poderiam aumentar sua produção melhorando as condições de trabalho dos seus operários. Foi nesse período que surgiram os primeiros programas para melhorar o bem-estar social, em outras palavras, foi nesse período que surgiram os primeiros INSS, FGTS e previdências sociais do capitalismo moderno.

Isso significou um grande problema para os marxistas, pois agora as pessoas começaram a gostar de trabalhar para o capitalista. Com isso, a revolução comunista não poderia ocorrer, pois se o povo não se revoltasse, não haveria revolução (óbvio não é?)! Então, qual seria a saída? Iniciar a revolução em um país que não tenha passado pela dupla-revolução descrita anteriormente. Qual seria esse país? A Rússia! E coube o papel de incendiar a revolta a Vladimir Lenin.

No entanto, havia um problema. Se o comunismo vem de uma sociedade capitalista, como fazer com que a Rússia pulasse de uma sociedade feudal para uma comunista, sem passar pelo capitalista? A solução foi que a Rússia passaria por uma espécie de capitalismo controlado e rápido, apenas para as pessoas pegarem o gostinho e perceberem os problemas do capitalismo. Depois, iniciaria-se a revolução que deveria tomar toda a Europa e o mundo.

Interessante perceber que já em 1917 viu-se que as ideias de conflito de classe, revolução comunista, fosso entre as classes e etc. possuiam lacunas e que o desenrolar da história provou-se diferente do que Marx previa. Percebeu-se que a revolta comunista não aconteceria em países capitalistas devido às políticas de bem-estar social empregadas pelos governos burgueses. Afinal, qual problema de eu trabalhar para um capitalista, se ele me dá dinheiro suficiente para eu ter uma vida bacana? Chegamos ao ponto onde gostaria de iniciar o último texto da série. Não deixe de ler!

1Não democrática como temos hoje no século XXI, mas já haviam à época constituições, assembleias eleitas e outras instituições democráticas.
2Muitos podem dizer que o início do período descrito foi com a revolução francesa de 1789.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Esquerda x Direita texto I – Conflito de classes


Um dos conceitos centrais do marxismo e, por consequência do pensamento de esquerda, é o conceito de conflito de classes. Esse desenvolveu-se ao longo do século XIX por Karl Marx e tornou-se ponto comum em quase todos os pensadores que o seguiram. Para melhor compreender esse conflito de classes, vamos voltar um pouco no tempo e ver uma das suas origens.

Na primeira metade do século XIX viveu um filósofo alemão chamado Georg Wilhelm Friedrich Hegel que desenvolveu um conceito interessante para dialética. Essa dialética que ficou conhecida como 'Dialética Hegeliana' difere em alguns pontos daquela utilizada pelos gregos, mas não iremos nos ater a isso nesse momento. Apenas mantenha em mente que a dialética aqui descrita não é igual àquela dos gregos.

Para Hegel, o desenvolver do mundo se resume a um embate entre opostos. Existe uma tese e uma antítese. Essas entram em conflito e desse último surge uma síntese que tornar-se-á um tese e reiniciará o ciclo. Exemplificando, imagine uma planta. Essa planta simplesmente vive (tese). No entanto, um determinado dia surge uma nova espécie de lagarta que ameaça a vida dessa planta (antitese). Do ponto de vista dessa planta, ela agora precisa enfrentar essa sua antitese. Esse conflito gera dor e sofrimento, mas ao final do processo ela se torna uma planta melhor pois superou sua antítese. Mas ela não é mais a mesma de antes, esse conflito pelo qual ela acabou de passar tornou-a uma nova planta, ou seja, uma síntese desse processo.

Analogamente, Marx pegou esses conceitos hegelianos e implementou nos seus estudos. Analisando a história da humanidade, ele conseguiu ver diversos períodos em que uma realidade estabelecida (tese) encontrou uma contestadora (antítese). Isso gerou um conflito que resultou em uma nova sociedade (síntese). Assim foi no Império Romano (tanto na sua ascensão quanto na sua queda), na Idade Média e na ascenção da burguesia.

Essa realidade da burguesia já estabelecida foi o ambiente no qual Marx viveu e escreveu. Para ele, esse período se dividia em uma classe que detinha os meios de produção ( os capitalistas ) e aqueles que vendiam sua força de trabalho para eles ( os operários ). Essa realidade caminharia para a criação de um foço social separando esses dois grupos. Teríamos aqui uma dialética hegeliana, sendo os capitalistas a tese, os operários a antítese. Disso resultaria um conflito, uma revolução. Essa revolução resultaria numa sociedade melhor e mais justa, a síntese.

Conflito de classe, simplificando, é a implementação do dialética hegeliana na sociedade. Existe um poder estabelecido que se defronta a uma nova realidade. Esses dois se embatem e geram uma nova sociedade. Importante notar que nesse processo, fala-se em dor, conflito, embates. Palavras importantes para os próximos textos.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O Senhor do anéis e as eleições

O mundo que Tolkien retrata em seus livros (tornados famosos para o mundo através dos filmes 'O Senhor do Anéis')sempre me fascinaram. Diversas analogias podem ser feitas e muitas lições interessantes escondem-se por de trás daquele mundo fantástico. Uma analogia que sempre que me intrigou é a do Anel do Poder. Para quem não conhece o universo de Tolkien, esse pequeno artefato promete ao seu portador poderes superiores aos de qualquer outro ser. No entanto, ele hipnotiza quem o carrega de tal forma que esse ser se torna uma espectro do que um dia foi. Ele se deforma, diversos sentimentos destrutivos e perigosos despertam em quem tem a sua posse. Ou seja, esse anel cega totalmente seu portador que apenas pensa em uma coisa: no anel do poder.

Essa simbologia representa muito bem o que acontece ao longo da História da humanidade. Pelo que eu já estudei, vi isso acontecer praticamente em todas as épocas. Na maioria das vezes segue-se a sequência: um governo novo atende os anseios do povo, conquista vitórias, mas depois se cega com o poder de tal forma que se torna uma caricatura do que um dia foi.

Analisando acontecimentos recentes no Brasil, vejo que estamos na segunda etapa do processo descrito no parágrafo anterior, caminhando para o terceiro. Por isso acredito estarmos no ponto para uma alternância no poder. Essa mudança é importante para quebramos o ciclo atual e iniciarmos um novo, para depois de alguns anos realizarmos outra troca. Para trocarmos, precisamos eleger a oposição, como já fora feito a alguns anos atrás quando a atual situação era oposição. Porém, não acredito que o atual candidato da oposição seja um messias que salvará a pátria dos males que atormentam a humanidade. Ele apenas evitará que a parte decadente do atual ciclo se realize, dando início para um novo ciclo que deve ser encerrado antes da sua própria decadência.

Alternando assim o poder, possibilitamos às conquistas de qualquer governo tornarem-se vitórias da sociedade. Pois, se por exemplo, um governo conquista a estabilidade econômica ou avanços sociais e próximo, da oposição, a mantém, mostramos que esses feitos não dependem de um partido ou pessoa. Mas provamos que a sociedade como um todo a aprova. E cabe a essa sociedade garantir que as construções feitas ao longo da sua história sejam preservadas e ampliadas mesmo na alternância de poderes. Dessa forma evitamos que pessoas sob o falso pretexto de defenderem os interesses nacionais usurpem o poder (ou se apoderem do Anel do Poder), transformem-se em caricaturas nefastas do que um dia foram e destruam o que foi construído por muitos. Em suma, o anel do poder deve ser dissolvido entre toda a população para mitigar suas consequências perversas e evitar que ele esteja na mão de apenas uma pessoa ou grupo fechado de cidadãos.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Comparações Lula X FHC

Dados do IBGE de 2011 mostram que naquele ano mais de 166 milhões de pessoas tinham acesso à internet. Isso, se comparado com o governo de d. Pedro I mostra como o governo atual melhorou e muito a vida do brasileiro. Isso porque quando d. Pedro I governava o Brasil, nenhuma pessoa tinha internet!
Absurdo esse primeiro parágrafo? Sim. Mas uso o absurdo aqui com objetivo de deixar claro uma frase: não se pode olhar o passado com os olhos do presente. Na campanha atual muitos procuram comparar os governos de Lula com FHC utilizando diversos índices econômicos, sociais, entre outros. Para mim, isso é tão absurdo quanto a comparação que fiz no primeiro parágrafo. Convido-o a ler minha explicação.
Um dos absurdos do primeiro parágrafo é que ele não considera os avanços tecnológicos de cada era. Quando éramos um Império, não havia internet. Portanto é ridículo comparar o acesso à internet de hoje com o do século XIX. Da mesma forma, simplesmente pegar dois índices e compará-los sem contextualização não faz sentido. Mesmo quando falamos de um intervalo de 20 anos. Afinal, nos últimos anos os avanços tecnológicos têm tido uma velocidade alucinante. Se compararmos as tecnologias de 1994 com as atuais, veremos que temos dois mundos totalmente distintos. E isso impactou enormemente a vida, os meios de produção e a maneira como vemos o mundo.
Outro absurdo da minha comparação inicial é que não levo em conta o contexto internacional do século XIX e de 2011. Lá não existia Alemanha. A Inglaterra e a França disputavam o domínio do mundo e os EUA eram um país recém-nascido. Trazendo esse absurdo para a comparação Lula x FHC, vemos que os contextos internacionais são completamente distintos. Nos anos 90 não existia BRICS, Euro, União Europeia. Portanto não havia muito para onde correr, seja para construir parcerias econômicas ou conseguir empréstimos melhores.
E um terceiro e último absurdo que gostaria de comentar é que na comparação não se analisa a situação interna brasileira. O Brasil no século XIX vivia a sua criação como estado-nação. Para isso enfrentou conflitos internos acirrados. Indo agora para os anos 1990, é necessário dizer que o Brasil em 1994 passara por diversos planos econômicos, uma moratória, impeachment de presidente e outros eventos mais desde o fim da ditadura militar. Em outras palavras, estava um caos e o processo de redemocratização ainda estava ameaçado. Haviam muito mais dúvidas e medos do que certezas para aquele Brasil. E ao Brasil existia muito pouco espaço de manobra para passar por crises. Situação muito diferente de quando estourou a crise de 2009, quando o Brasil a 10 anos (portanto iniciado ainda no governo FHC) já possuía uma política de economia de reservas.

Comparar dois períodos históricos é muito interessante para conhecermos nossa história e como os eventos transcorreram ao longo dos anos. Porém não podemos cair num maniqueísmo barato em que se busca um certo e um errado para decidir em quem votar. A História já foi muito utilizada para endossar diversos regimes (autoritários ou não). Mas eu penso que História sirva para nos conhecermos e a escolha de um candidato deva ser baseada em quem gostaríamos de ser.